Já ouviu falar em Mariópolis? Sabe onde fica?
Não, não estou me referindo ao município situado no estado do Paraná, mas sim a um bairro no fim da cidade do Rio de Janeiro.
Há muito tempo tempo atrás, fizeram um movimento no bairro, ou melhor, em Anchieta (pois Mariópolis é como se fosse um pedaço de Anchieta, que pode ser então considerado como um bairro extenso) a fim de pedir a atenção das autoridades para o bairro, pois por estar na fronteira com o município de Nilópolis, se encontrava mais esquecido pelos governantes da época. Fizeram várias pinturas interessantes nos muros da hoje Supervia, mas infelizmente, com o tempo, a boa vontade das pessoas do movimento, ficou apenas como boa lembrança, pois sejamos claros, é uma região onde os políticos só aparecem quando está perto de eleição. Não vou entrar muito em detalhes sobre a história do bairro, pois senão vou fugir do foco deste tópico. Quem quiser saber mais é só visitar este site interessante aqui.
Quero mesmo é abordar o trauma que passam as pessoas que se aventuram a morar em Mariópolis. Mas André, o bairro é tão ruim assim? Não pessoal, não que o bairro seja ruim, pois por incrível que pareça, é um dos melhores lugares no subúrbio do Rio para se morar pois não é perto de favelas com forte tráfico de drogas, não há tiroteio todos os dias e costuma ser um lugar muito agradável para quem está a fim de relaxar naqueles dias especiais (dependendo da rua…rs).
Mas vou dizer a vocês, o que quebra esta região é a questão TRANSPORTE. Diversas vezes me pego enfurecido com este problema assolador no bairro. Desde 1992, quando minha mãe se mudou para Ricardo, na Rua Araçá, eu já comecei a conhecer este cotidiano de 386 para cá e para lá.
A coisa mais chata é tu morar em um local onde tu dependa de uma só linha de ônibus para poder ir para o teu destino. É assim em Mariópolis. Para ir para Nova Iguaçu, é o 540, o confortável micro ônibus da Nossa Senhora da Penha, que dias de sábado está tão cheio na ida e volta para Nilópolis que parece que as pessoas são sardinhas em lata do Carrefour. Para ir para a Zona Norte, perto do Norte Shopping é o 624, que se tu pegá-lo do ponto final na Praça da Bandeira para seguir até Mariópolis, tu não vai resistir e vai acabar cedendo o lugar para outra pessoa sentar no meio do caminho de tanta volta que ônibus dá. Pelo visto, parece ser uma linha feita mais voltada para o público que transita pela Zona Norte do que para as pessoas que moram em Marió. Mas tenho que bater palmas também para a Novacap, pois apesar dos problemas, coloca muitos ônibus para rodar, e de muitas empresas aqui da cidade, parece ser uma das mais responsáveis. Eu disse parece… até que me provem o contrário.
Além de todos estas conexões, existe uma que é a primordial pois é a mais utilizada por seus moradores em qualquer bairro que seja, é a que liga o bairro ao Centro da cidade. Ter linhas únicas para as viagens que disse antes dificulta um pouco as coisas, mas ter este mesmo quadro para ir para a “Cidade” como dizem os mais velhos, é realmente o sufoco. Bem vindo ao inferno!
Agora vamos tocar na ferida. Por fim, a encarregada excluisvamente por fazer este transporte de Marió para o Centro é a querida Auto Diesel com a linha 386, que já passou na mão de diversos donos e hoje é a mesma Via Rio. Se quiser saber um pouco mais sobre a história desta empresa, tem um blog super interessante que conta a história dela. Veja aqui.
Por várias vezes fiquei me perguntando. Por que até hoje não conseguiram colocar uma outra linha de ônibus no bairro. Desde minha adolescência, vejo todo dia os moradores se matando para “descer” para o trabalho neste ônibus e “subir” com ele novamente.
Soube uma vez, o que não foi confirmado oficialmente, que a empresa do 624 e do 723, a Novacap tentou trazer uma linha para o bairro que ligasse até o Centro, mas infelizmente encontrou várias barreiras e a boa intenção não pôde ir a frente.
Daí pode-se vir várias perguntas, várias dúvidas. Palavras podem flutuar em nossa mente a procura de respostas: monopólio, cartel, máfia…? Estes termos ou algum outro que explica isto?

O ônibus tarifa de ar condicionado que carrega muitos passageiros por dia apesar do seu valor exorbitante
Sabe qual um dos piores problemas quando tu não tem opção de escolha para usar algum produto ou serviço? Ou tu usa aquele ou fica sem usar? E aí, como o trabalhador vai chegar ao seu emprego de manhã cedo senão se subordinar a empresa que faz os seus horários quando quer?
Vá um dia parar para conversar com algum morador deste bairro e verifique se ele não possui um traço deste trauma do qual estou falando. Felizmente provável de não ser trauma de violência no bairro, mas é um outro tipo de trauma e aborrecimento, que quando vem e atinge, atinge na hora errada e desanima muito alguns.
Além de poder fazer os horários que quiser, A Auto Diesel ainda regulamenta sua própria economia. Como assim? Lembro que a passagem na linha 386 normal para o Centro era de R$ 2,10 enquanto a do Tarifa SE002 que faz o mesmo itinerário mas com o conforto do ar condicionado era R$ 3,00. Assim que os órgãos regulamentadores aprovaram o reajuste das passagens, a normal foi para R$ 2,20 e do Tarifa não seguiu o mesmo índice de reajuste indo para R$ 4,00. Achei que o Tarifa ia começar a andar vazio a partir deste momento, mas foi engano meu. No começo doeu no bolso do povo, mas depois o pessoal foi se anestesiando, além de ter aqueles que sempre gostam de fazer uma pose e ir e voltar no “Frescão”, descer na porta de casa de óculos escuros, mesmo que já seja 19h e já esteja tudo escuro.
Agora a última facada foi pior: O reajuste da passagem comum do município do Rio passou para R$ 2,35 e novamente com sua independência econômica, a empresa passou o valor do Tarifa para R$ 5,00. Pode fazer as contas e tu vai que em momento algum seguiram o mesmo critério de reajuste.
Para mim ainda não passou a anestesia destes 5 reais. Se tu vai passear no Centro com esposa e tua mãe, ida e volta já dão 30 reais sem contar o que tu vais consumir no Centro da cidade. Hoje em dia, pego o Tarifa quando há lugar pois a empresa que estou ainda me permite usar uma passagem deste valor, mas se vem no mesmo momento o carro normal de R$ 2,35, ligo meu Ipod e vou numa boa em pé aguardando a chegada ao meu destino sem pestanejar.
Trauma é isto pessoal. Ficar nas mãos de empresários que podem determinar quanto vão cobrar de passagem, que horas vão passar os ônibus e quantos ficarão em circulação.
Aí tu decide se quer morar em Mariópolis ou não. Coloque os pesos e medidas e se achar que vale a pena, corra o risco de se perder no gasto com transporte.
Ainda sonho um dia em não ver a população deste bairro não sofrer mais e ter outras modalidades de transportes ou até outras linhas, mas enquanto não houver um movimento forte ou alguém mesmo interessado em ajudar esta comunidade, nada vai mudar e tudo vai continuar como antes.
Opa, vou parar por aqui. Vem vindo ai o 386 e se eu perder este, já era… só amanhã o próximo.